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Foto: Welton Araújo | Agência A Tarde / A Tarde on-line 25Nov2007
É com muito pesar que escrevo meu comentário sobre a partida que garantiu a classificação do Bahia para a Série B sem tocar no assunto principal: o futebol. Lamentavelmente o tão sonhado acesso veio acompanhado da tragédia mais absurda que já aconteceu em um estádio de futebol. Simplesmente abriu-se um buraco no piso da arquibancada e várias pessoas caíram de uma altura de mais de 15 metros. Foram sete mortos e vários feridos.
A FESTA...
Não era para ter acontecido isso, era um dia de alegria e de festa. O clima da cidade lembrava a final do Campeonato Brasileiro de 1988. No trajeto de minha casa até a Fonte Nova era só felicidade. Uns carros tocavam o hino, outros buzinavam, muitas pessoas com bandeira na mão, todas com a camisa tricolor. Meninos acenando, as ruas repletas de gente, tudo lindo até a chegada ao estádio.
A partida não foi lá muito boa tecnicamente. Foi um jogo nervoso e o Bahia não repetiu a boa atuação do jogo passado, mas pelo menos foi superior ao Vila Nova o tempo todo, chegando até perder um penalty. No finzinho do jogo, os dois times ficaram com medo de tomar gol e ficaram gastando o tempo esperando o apito final. FIM DE JOGO! BAHIA CLASSIFICADO PARA A SEGUNDONA...Só alegria!!!!!!!!!!!!! Pura ilusão! Foi nesse momento que começaram os fatos tristes.
...VIROU TRAGÉDIA
Eu estava do outro lado da arquibancada de onde aconteceu a tragédia. Estava na torcida POVÃO com minha esposa, meu filho de 7 anos, meu sogro e meu irmão. Ao final da partida, percebemos que uma parte da arquibancada onde fica a BAMOR estava vazia. Achamos que os integrantes da torcida tinham descido para comemorar invadindo o campo e não demos muita importância. Continuamos curtindo da arquibancada, vibrando com o tão sonhado acesso e assistindo à invasão de campo que, a princípio parecia ser um ato somente de euforia e alegria. Porém, o que se verificou depois foram cenas de vandalismo sem sentido e sem justificativa. Os torcedores destruindo os bancos de reservas, o carrinho que carrega a maca, as traves, as redes, a grama e tudo que viam pela frente. Fiquei envergonhado com tais atitudes. A partir desse momento percebi que minha alegria começara a ficar triste. Resolvi ir ao sanitário, pois ainda estava muita confusão para sair do estádio naquele momento, ainda mais com a presença de um trio elétrico do lado de fora. Ao começar a descer a escada que dá acesso ao anel inferior, escorreguei e levei um tombo daqueles. Cai por cima do braço que, por sorte, não quebrou. Mas, ainda assim doeu muito, pois além da pancada, o braço ficou esfolado, todo ralado. O local estava escuro e o piso todo molhado de urina, além de muito lixo pelo chão. Não sei qual foi o verdadeiro motivo de minha queda, pois a sola de meu tênis também está gasta. Comecei a perceber que tinha que ir embora, pois a bruxa estava à solta.
Retornei ao encontro dos meus familiares mostrando o braço e falando que era melhor irmos logo. O pessoal ficou preocupado e jogou água tentando limpar a ferida que se formava. Resolvemos tentar sair do estádio, mas logo percebemos que iria ser complicado, pois o trio estava tocando para uma multidão bem na saída que utilizaríamos. Então, tivemos que dar a volta no estádio para sair pelo portão em frente ao Ginásio Antônio Balbino. Quando começamos a descer a ladeira, fomos barrados por um cordão de isolamento feito pela polícia. De imediato não entendi o porquê, mas depois vi a presença de ambulâncias, corpo de bombeiros e verifiquei que algo grave havia acontecido. Foi quando um torcedor me falou que alguém havia caído lá de cima e havia morrido. Fiquei assustado, sofri um impacto forte. Arrodeamos o Ginásio e saímos mais à frente da ladeira, depois da parte interditada. Foi quando consegui verificar o buraco na laje da arquibancada. Não acreditei no que vi e fiquei mais estarrecido ainda. Parecia que o chão que estava debaixo de mim também havia desabado. Liguei o rádio e tomei conhecimento da dimensão da tragédia. Diversas pessoas mortas e feridas. O trio ainda tocava e muitas pessoas não tinham nenhuma noção do que acontecera. As rádios tentavam fazer com que os trios parassem, a festa não tinha mais porque continuar...
Fomos em direção ao carro, meu braço não parava de arder e minha mente não parava de pensar nas vítmas. Ao chegarmos no local, para completar, arrancaram o retrovisor do lado do carona de meu carro. Não dei a menor importância, era algo material de valor insignificante, ainda mais diante de tanta miséria. Entramos no carro e fomos para casa ainda apreensivos, pois não tínhamos notícias de meu cunhado que adora ficar bem no local onde ocorreu a tragédia. Mas, ao chegarmos soubemos que estava tudo bem e que finalmente estávamos sãos (nem tanto) e salvos.
O dia, que parecia tão especial, se transformou numa data trágica e inesquecível (infelizmente). A cidade foi ficando quieta e quase não se escutava buzinas de carros, nem gritos e muito menos o hino do Bahia. À medida que a notícia ia se espalhando a festa ia esmurecendo... todos ficaram abalados, estarrecidos. Não havia mais o que comemorar.
O que ocorreu foi inaceitável. Não se tratou de uma fatalidade como muitos estão falando... Fatalidade é cair um raio, ou acontecer um terremoto. Uma laje de arquibancada não suportar a carga à qual foi prevista não é acidente. É negligência. Alguém é responsável por isso. Um estádio de 50 anos de idade que não tem a manutenção adequada não pode receber 60 mil pessoas sem um laudo técnico comprovando sua segurança. E se algum profissional deu esse laudo ele é o responsável pela tragédia. Qualquer leigo sabe que a velha estrutura da Fonte Nova está em ruínas. As ferragens do concreto armado estão expostas sendo degradadas pelas intempéries em todos os setores do estádio.

Foto: http://www.baheaminhaporra.com/
Bem, agora, depois do fatídico dia, as vistorias serão feitas, as responsabilidades serão apuradas e os culpados serão punidos (SERÁ ????!!!!!). Depois disso, o que acontecerá com o estádio da Fonte Nova? Será demolido? Será totalmente reformado? Independentemente de haver jogos da Copa do Mundo em Salvador ou não, precisamos ter uma praça esportiva à altura de nosso povo, que tanto ama o futebol. Mas, nada disso importa agora. Vidas foram ceifadas e pessoas estão feridas em hospitais, além do trauma que todos nós sofremos. Não tem remédio para o que ocorreu. Nada fará apagar de nossas mentes esse horripilante 25 de novembro de 2007.
criado por Euclides Almeida
16:03:00